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Mais carne e Melhor

Mais carne e Melhor

A busca por melhor rendimento e qualidade da carne ensaia uma nova tônica nos programas de melhoramento genético, resultando em um maior foco na avaliação de carcaça. Quem fala mais sobre o tema é o especialista Fabiano Rodrigues da Cunha Araújo, da Aval Serviços Tecnológicos.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG – A procura dos selecionadores pela avaliação de carcaça é crescente ano a ano. A que se deve essa demanda?

Fabiano Araújo – Após todos os trabalhos de pesquisas e implementação das informações nos programas de melhoramento genético, temos hoje uma tecnologia madura, que gera resultados e ganhos aos rebanhos que a adotam. Através desses resultados iniciais, outros rebanhos passam a adotá-la com o principal objetivo de fornecer uma genética que promova maior rentabilidade aos seus clientes. Mas, ainda temos um grande trabalho para frente.

Revista AG – Nossa tecnologia está no mesmo nível de países precursores como os Estados Unidos?

Fabiano Araújo – Sim. Tivemos no Brasil um grande investimento em qualificação e hoje temos a Atubra, que é uma associação brasileira que atua em parceria com a UGC, associação americana nas certificações e com programas de educação continuada. Atualmente, todos os programas de melhoramento genético no Brasil exigem técnicos e laboratórios certificados, com o intuito principal de orientar os produtores, assegurando também a qualidade dos seus bancos de dados.

Revista AG – Mas o que falta para essa ferramenta decolar? Talvez a adoção de um sistema de padronização e classificação de carcaças?

Fabiano Araújo – O que mais faltava era a adoção dessa tecnologia pelos programas de melhoramento genético, que possibilitam, com seus trabalhos, as predições de DEPs, importantes na seleção genética. Sem dúvida, nosso sistema de classificação de carcaça não contribui com a tecnologia, pois ele ainda adota muito as avaliações subjetivas dentro de seus sistemas. Acredito que o futuro com modelos de índices econômicos poderá trazer um grande benefício, pois iremos nos focar no que realmente traz lucro em termos de seleção.

Revista AG – É comum ouvir pecuaristas dizerem que não adotam a tecnologia porque não recebem por isso. Eles estão errados?

Fabiano Araújo – Olhando do ponto de vista de rendimento, o produtor recebe pelo Peso de Carcaça Quente (PCQ). Temos de lembrar que esse é um lucro líquido que pode impactar tranquilamente um aumento de +30%, uma vez que ela não interfere no custo de produção. Se temos um lucro de 2@ ano/cabeça e conseguimos aumentar em 2% de rendimento de carcaça quente (PCQ), computamos um ganho de 36% no lucro líquido por animal. Você conhece alguma indústria que somente em um nível de produção consiga esse ganho? Agora, isso depende da escolha do nosso pecuarista.

Revista AG – Na sua opinião, ainda é utópico falar de padronização e classificação de carcaças no Brasil?

Fabiano Araújo – Não. Alguns programas de carnes certificadas já possuem seus classificadores para exercer esse trabalho. Precisamos lutar para termos um programa nacional que beneficie a todos, ou seja, fornecedor, indústria e, claro, o consumidor. É de conhecimento de todos que já temos alguns mercados de carne gourmet e de programas sólidos como o do Novilho Precoce no Mato Grosso do Sul, que buscam valorizar a carne Premium dessas carcaças de melhor qualidade. Acredito que cada raça tenha que fazer seus investimentos para garantir a demanda de seus produtos, pois nosso cliente passa a ser cada dia mais exigente e todas as informações irão chegar ao cardápio, na escolha do prato nosso de cada dia.

Revista AG – Aliás, vem crescendo o pagamento de prêmio pelos caracfrigoríficos a criadores que participam de marcas de carne. Seria uma medida desesperada da indústria ou realmente deve-se a um avanço da avaliação de carcaça?

Fabiano Araújo – Esse é um processo lento, mas temos programas com premiações de até 8% às melhores carcaças. O que precisamos são mais iniciativas e alianças de produtores em caráter nacional.

Revista AG – Confirma que os pecuaristas ainda são remunerados abaixo do que deveriam por essa matéria- -prima de qualidade superior?

Fabiano Araújo – De modo geral, a grande maioria dos frigoríficos acaba nivelando por baixo a boiada que adquirem, ou seja, ainda não pagam esse diferencial de qualidade aos produtores. Vejo movimentos mais preocupados com contratos de volume, valorizando logísticas e garantia de escala. Ainda não temos uma dimensão de o quanto isso pode favorecer a classe pecuarista como um todo.

Revista AG – É comum ter animais grandes e gordos, mas que depois do abate apresentam rendimento de carcaça insatisfatório?

Fabiano Araújo – Temos dois tipos de rendimento: Rendimento de Carcaça Quente e Rendimento de Desossa. Em nenhum desses dois tipos de rendimento o tamanho do animal está correlacionado. O peso, sim, tem correlação positiva com o rendimento, principalmente de carcaça quente, em conjunto com a Área de Olho de Lombo (AOL) e espessura de gordura. O acabamento em excesso tem uma correlação negativa com os outros dois rendimentos, mas não é um problema que temos com nosso boi de pasto.

Revista AG – Quais parâmetros indicam se uma carcaça é boa ou ruim?

Fabiano Araújo – O ideal é buscar uma carcaça que apresenta um ótimo acabamento e muito bom rendimento em animais de idade jovem. O acabamento garante uma boa coloração, fator determinante na escolha da carne e também na vida de prateleira. Além disso, o bom acabamento ajuda a obter uma carne mais macia, evitando processos de encurtamento das fibras musculares durante o resfriamento. O rendimento também é muito valorizado, pois temos ganhos na otimização da linha de produção e isso é importante para a eficiência da nossa indústria. A idade tem sua influência na maciez, pois animais mais velhos possuem tecidos conjuntivos de baixa solubilidade, aumentado o grau de rigidez da carne.

Revista AG – Até há alguns anos atrás, o Brasil apresentava uma média de 55,5% de rendimento de carcaça. Isso mudou recentemente? Até onde podemos chegar a curto/médio prazo?

Fabiano Araújo – O processo de limpeza da caraça teve alguma mudança na indústria e realmente isso interferiu nos rendimentos. Hoje, temos mais animais confinados rendendo, em escala comercial, 55,5%. Em termos de seleção, podemos melhorar muito, porque temos, atualmente, genética com possibilidade de ganho de 2,5% no curto prazo, ou seja, 4-5 anos. Pensando- -se no ciclo de pecuária, temos condição de agregar uma geração. No médio prazo, acredito que a ultrassonografia tende a contribuir para a identificação e posterior multiplicação dessas genéticas.

Revista AG – Quais são as caracfrigoríficos terísticas priorizadas nos programas de avaliação de carcaça?

Fabiano Araújo – A avaliação da AOL, diretamente relacionada aos rendimentos; a Espessura de Gordura (Acab) e Grau de Marmorização. Essas duas características iniciais ainda são utilizadas para predizer a DEP de Rendimento de Carcaça Quente e Rendimento de Porção Comestível (desossa).

Revista AG – Qual a função da avaliação de AOL? Ela também seria preditora do rendimento de carcaça do animal pós-abate?

Fabiano Araújo – A mensuração da AOL deve-se pela sua correlação com o rendimento de carcaça quente e rendimento de desossa. A adoção dessa medida surgiu após vários trabalhos de pesquisas que mostraram uma herdabilidade de moderada a alta (h2 = 0,38), bem como variabilidade, mostrando que tínhamos possibilidade de ganhos através da genética.

Revista AG – As DEPs (diferenças esperadas na progênie) de carcaça possuem um bom grau de herdabilidade? Quanto?

Fabiano Araújo – Falando da raça Nelore, que temos predominância em nosso território, temos uma herdabilidade moderada alta para AOL e Acab, ou seja 0,38 (38%) e 0,40 (40%), respectivamente, e moderada baixa para marmoreio 0,28 (28%).

Revista AG – Existe diferença entre os objetivos das DEPs EGS (Espessura de Gordura Subcutânea) e “P8” (Espessura de Gordura Subcutânea na Garupa)?

Fabiano Araújo – Não. Temos uma correlação genética das duas características na ordem de 0,85 (85%), mas é importante a mensuração das duas, pois temos mais informação na predição da DEP acabamento.

Revista AG – No início dos anos 2000, vimos uma verdadeira “corrida” por marmoreio, mas ao privilegiar essa qualidade, corre-se o risco de inibir o desenvolvimento de outras?

Fabiano Araújo – Temos avaliado essa característica em alguns rebanhos, mas como forma de mapeamento. Não temos nenhum sistema de bonificação no Brasil e, para complicar, nenhum sistema de classificação que permita remuneração extra ao produtor. A avaliação para fins de melhoramento também se restringe a poucos rebanhos, pois para a correta identificação dos animais com potencial genético precisa ter um elevado grau de nutrição. Nesse caso, o marmoreio funciona como a característica de precocidade sexual, ou seja, a genética determina e o ambiente limita. Para um trabalho com resultados, temos de ter um ambiente que proporcione, em média, um acabamento de 5 mm de gordura e, então, avaliaríamos os animais que, nesse ponto, apresentam ou não o grau de marmorização. Essa característica não apresenta correlações com as demais estudadas, não inibindo outros ganhos. Mas temos de levar em consideração que, quanto mais características no foco do melhoramento, menor o ganho genético que teremos em cada uma delas.

Revista AG – Aliás, como deve funcionar o equilíbrio entre os atributos de carcaça e de funcionalidade?

Fabiano Araújo – Temos, hoje, trabalhos já mostrando ganhos em funcionalidade, principalmente falando-se em precocidade sexual e ganhos reprodutivos.

A IATF passou a ser uma ferramenta de grande importância na nossa pecuária de corte e sabemos como os escores corporais impactam em seus resultados. O trabalho na seleção de acabamento pode contribuir muito com os índices reprodutivos e também na precocidade sexual. Fico preocupado com produtores que argumentam que não fazem a seleção para acabamento porque a indústria não o remunera, mas se esquecem dos ganhos reprodutivos que serão obtidos dentro do próprio rebanho.

Revista AG – Erros na interpretação dos ultrassons são um gargalo a ser superado?

Fabiano Araújo – Foram! As associações de raça e os programas de melhoramento têm suas responsabilidades e elas são de grande importância nesse processo. Eles podem e devem apoiar e exigir, em nome do produtor e de sua raça, a continuidade do processo de certificação que garanta ganhos ao produtor e a sua associação, minimizando erros por falta de qualificação técnica. Muitas vezes, também acho que o barato pode sair caro, principalmente em trabalhos que dependem da qualificação técnica. Caro é aquilo que não dá bons resultados.

Revista AG – O Marcos Yokoo, da Embrapa Sul, disse que outro desafio é a falta de padronização das avaliações entre programas de seleção ou de regiões diferentes. Você concorda? Por quê?

Fabiano Araújo – Concordo. Acredito que, com apoio vindo das Associações de Raça e Programas de Melhoramento genético aos programas de certificações de técnicos e laboratórios de ultrassonografia, é possível contribuir muito para esse processo.

Revista AG – O que o futuro nos reserva? DEPs Genômicas de avaliação de carcaça e maior foco nos testes sensoriais?

Fabiano Araújo – Vivemos em constante evolução e acredito que, no futuro, teremos uma grande contribuição por essas novas tecnologias. Os marcadores moleculares serão de grande contribuição para a seleção de características de difícil mensuração, que poderão ser incorporadas no processo de seleção, como maciez da carne e eficiência alimentar. Os testes sensoriais são importantes quando valorizamos a qualidade do nosso produto e será parte do processo em busca de produtos de alta qualidade. Não podemos esquecer que temos de focar em características de importância econômica, garantido ao nosso pecuarista competitividade para que possa ter sustentabilidade em seus negócios.

AG - A Revista do Criador


Edição 180
09/2014

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